
No novo filme do realizador britânico Mike Leigh, “Verdades Difíceis” (“Hard Truths”), não há heróis nem vilões, só gente real, a tentar não enlouquecer. Leigh está assim de volta, e com ele regressa também aquela sensação muito específica de desconforto que só o cinema britânico bem feito consegue provocar: a de estarmos a assistir a vidas reais em vez de uma ficção reconfortante. “Verdades Difíceis”, ou como eu gosto de lhe chamar, ‘A Mulher Mais Chata do Mundo’, é um desses filmes que nos arrasta por dentro de uma casa, de um casamento, de uma alma e depois nos deixa lá dentro, fechados à chave, a tentar respirar.
A premissa é simples: Pansy (Marianne Jean-Baptiste), uma mulher de meia-idade, exausta de tudo e todos, vive com o marido Curtley (David Webber), um homem bom, mas já de braços caídos. A rotina é uma sequência de discussões, olhares atravessados, silêncios pesados e tragédias do dia-a-dia que não precisam de música dramática para doer. Tudo é seco. Tudo é cru. Tudo é Mike Leigh.
Até a pobre dentista sofre
O que há de extraordinário em “Verdades Difíceis”, é que, apesar de Pansy ser, de facto, a mulher mais chata do mundo — e isto não é julgamento, é constatação clínica —, conseguimos, aos poucos, perceber o porquê. Há ali um passado que não se conta com flashbacks nem violinos. Há um ressentimento que foi crescendo como uma infiltração mal resolvida. Pansy é a voz de todas as frustrações acumuladas, das portas que nunca se abriram, da vida que se foi apertando como sapato barato. E Leigh filma isso com a paciência de quem conhece bem as esquinas sombrias da alma humana.

A grande surpresa é que, apesar do peso do tema (envelhecimento, solidão, casamentos por um fio, filhos que se perdem no silêncio), o filme tem um humor muito próprio. Não daqueles de rir às gargalhadas, mas aquele riso meio amargo que nos escapa quando alguém diz uma verdade tão dura que só resta rir. Há uma cena com um dentista — não vou revelar — que é digna de entrar para o top de ‘consultas mais desconfortáveis da história do cinema’.
Quando os sonhos não se concretizam
E se o título alternativo fosse também ‘Como Ser Casado com Alguém Que Está Sempre Pior do Que Tu’? Curtley, o marido, devia receber uma condecoração. Um homem que aguenta uma década de mau humor, desprezo e monólogos carregados de mágoa devia ter direito a um subsídio. Ou pelo menos a uma estátua no jardim da escola primária local.

Mas “Verdades Difíceis”, não é um filme sobre culpas ou julgamentos de pessoas. É sobre a vida. Sobre aquilo que sobra quando os sonhos não chegaram e os dias continuam a chegar. É também sobre a possibilidade (ténue, mas possível) de redenção, através de quem ainda nos vê como humanos, mesmo quando só mostramos espinhos e essa pessoa é, claro, a irmã Chantelle (Michele Austin), que funciona como contraponto, como luz, como a prova viva de que é possível envelhecer sem azedar completamente.
Um filme sobre pessoas iguais a nós
Mike Leigh faz aqui aquilo que melhor sabe: põe-nos frente a frente com pessoas que poderiam ser nossas vizinhas, tias, mães, ou mesmo nós próprios daqui a uns anos. Não há truques, nem grandes revelações. Só a verdade. E, como o título indica, às vezes, é mesmo difícil de engolir. No fim, saímos da sala com vontade de ligar a alguém — à mãe, ao marido, à irmã — e perguntar: ‘Está tudo bem contigo?’ Porque o cinema de Leigh faz isso: obriga-nos a olhar para a nossa própria vida com um bocadinho mais de atenção e humildade. E sim, Pansy é insuportável. Mas quem nunca foi insuportável, que atire a primeira crítica. Há dias assim….


