
Em “O Surfista”, Nicolas Cage é despejado da sua própria dignidade num delírio solarengo com sabor a cerveja quente, humilhação pública e wrestling psicológico à beira-mar. Um filme que podia ser na Costa da Caparica…ou na Comporta…e se os surfistas fossem franceses ou americanos? Estou a brincar não tenho nada contra os franceses, nem contra os americanos….mas fala-se cada vez mais em praias privadas e caminhos de acesso às praias cortados…
Imaginem isto: chegam à Praia da Princesa, ali na Caparica, depois de muitos anos de frequência assídua, toalha aos ombros, protetor no nariz e sonhos de bodyboarder na cabeça — porque já não há coluna para o surf — e um grupo de surfistas franceses ou americanos, bronzeados, musculados e provavelmente com nomes como Thibault e Quentin ou Utah e Bodhi e dizem-nos que ‘non, monsieur, no sir’, esta praia agora tem dono. E que o melhor é voltar para o Lidl de Almada e deixar as ondas para os novos locais. Podia ou não ser o início de um filme?

O homem que já foi tudo
Pois é exatamente por aí que “O Surfista” (“The Surfer”), do realizador australiano Lorcan Finnegan, nos leva. Só que em vez de mim, ou de si, o protagonista é Nicolas Cage, esse homem que já foi tudo em Hollywood — vampiro, motociclista do inferno, ladrão de túmulos, marido de Cher — e que agora veste a pele (queimada pelo sol) de um tipo normal de meia-idade em crise existencial. Um agente imobiliário que volta à sua terra natal para ensinar o filho a surfar… e acaba a dormir no carro, a beber água de poças e a levar tareia de um gangue de surfistas locais com ares de seita paramilitar. Sim, leu bem.
“Não vivas aqui. Não surfas aqui.”
A frase é simples, mas tem peso de guerra civil. Cage — que chegou de mansinho para reviver memórias e apanhar uma onda com o seu puto — descobre que a praia da infância foi tomada pelos Lunar Beach Boys, uma irmandade de bronzeadores em overdose de ego e musculação, liderada por Scally (o entretanto falecido Julian McMahon mais uma vez a fazer de vilão entre o coach motivacional e o psicopata com diploma em crossfit). A partir daí, o filme é uma espiral de desespero, poeira e suor. Perde a prancha. Perde a casa. Perde a cabeça. Só não perde o estilo, que isso, no Cage, já vem embutido.

Cage, o mártir da areia
A grande força de “O Surfista” está no modo como brinca com o ‘mito Nicolas Cage’. É como se o próprio ator se tivesse transformado num género cinematográfico autónomo: há o drama, a comédia, o thriller… e há o Cage Movie™. E este é um dos melhores.
Aqui, Cage encarna o homem moderno reduzido a animal ferido, despojado da sua virilidade de catálogo, obrigado a lutar pelo seu lugar ao sol (literalmente) enquanto é espancado com pranchas de surf e discursos sobre pertença. É como ver “O Padrinho”, mas escrito por um guru de Instagram infectado pela raiva.
“The Swimmer” encontra a Caparica
Há algo de clássico neste filme que nos lembra por exemplo “Mergulho no Passado” (The Swimmer, 1968), esse bizarro mergulho de Burt Lancaster numa América em colapso interior. Mas “O Surfista” troca piscinas suburbanas por praias violentas, e insinua que o que está em jogo não é apenas o território, mas o direito a existir sem ser humilhado por um bando de malta do crossfit com trauma de infância e bronze de solário.

Finnegan realiza tudo com mão firme e um gosto apurado por imagens que são entre o delírio e o pesadelo tropical. Há sol, há suor, há cenas de pancadaria em slow motion dignas de Denis Villeneuve à beira de uma insolação. E há Cage, a meio do filme, já totalmente alucinado, o que, convenhamos, é quando ele está melhor.
Crise de meia-idade com prancha
“O Surfista” é um filme sobre território, masculinidade tóxica, feridas mal saradas e aquele momento da vida em que já não se sobe à prancha, mas ainda se tem esperança de apanhar a onda. É também uma sátira feroz, uma comédia negra sobre exclusão e identidade, tudo embrulhado num drama solarengo com sotaque australiano.
No fundo, o que Cage queria era ensinar o filho a surfar. O que acaba por fazer é mostrar-lhe como sobreviver quando a vida nos espeta a prancha nas costas e ainda diz que a culpa foi nossa.

O santo padroeiro dos humilhados
Se alguma vez foi expulso da sua própria praia (literalmente ou metaforicamente), este filme é para si. Se nunca foi, veja-o como aviso. E leve Nicolas Cage como santo padroeiro dos humilhados e ofendidos com areia nos calções com flores e camisa havaiana.


