De Gisèle Pelicot a Xerazade, passando por Marte, Gaza e a extrema-direita francesa nos calcanhares, a edição de 2025 do Festival de Avignon é uma bomba-relógio teatral. E Tiago Rodrigues é o homem certo para acender o rastilho.

Portrait of Tiago Rodrigues © Christophe Raynaud de Lage
Estive cinco dias de férias na cidade de Avignon há uns três anos, mas fora das datas do Festival. Já é quase um ritual: prometo que é “este ano” que vou, e falho. Culpa da minha agenda dos festivais de cinema… Porém, Avignon está lá, a cidade e o mito, o eco das falas antigas nas pedras quentes dos monumentos e da muralha, que recordo com melancolia, aliás como aquele céu de uma cidade sem nuvens…mas no verão. Lá senti-me parecia, perseguido por um fantasma. Mas não daqueles assustadores. Um bom fantasma, que sussurra: “Então? Vais continuar a fugir?” O Festival de Avignon é isso: não deve começar nem acabar com os aplausos do público. Persegue-nos no silêncio. Puxa-nos como quem diz: “Volta, mas volta a sério, quando tudo isto estiver cheio e a funcionar.” Foi essa a sensação quando visitei Avignon para além dos seus monumentos, como o Palácio dos Papas, centro nevrálgico do Festival e símbolo da beleza da cidade amuralhada, dominando o Ródano.
Este ano, mais uma vez com o Tiago Rodrigues ao leme, já desde 2022, o Festival de Avignon promete terminar em grande. Mesmo à distância, vou acompanhando através das Lettre d’information du Festival d’Avignon e das crónicas do Le Monde. Daí este meu mergulho narrativo nos espetáculos que gostaria muito de ver nesta 79ª edição do festival, criado pelo ator e encenador Jean Vilar, em 1947.

“La Distance”/Tiago Rodrigues
O teatro como nave espacial (e cápsula do tempo)
Avignon 2025 parece ter sido programado pela NASA com alma de Sartre: todos sós, mas juntos, a flutuar. Tiago Rodrigues, como sempre, não brinca em serviço. Depois de meter os franceses a dizer “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” com naturalidade, agora manda o teatro para o espaço. Literalmente.
Em La Distance, a filha vive em Marte e o pai ficou na Terra. Há afeto, colapso ambiental e sci-fi emocional — a distância transformada em poesia cósmica. Estreada a 5 de julho, a peça passa-se em 2077 e aborda as consequências do aquecimento global e a relação entre pai e filha, que só podem comunicar por voz.

“La Distance”/Tiago Rodrigues
E não está sozinho nesta viagem interestelar: ouvi falar de Planètes, de Jeanne Candel, um espetáculo off, que junta dois astronautas perdidos no cosmos e foi recebido com entusiasmo na primeira semana do festival.

“Nôt”/Marlène Monteiro Freitas
Nôt: Xerazade no escuro com Marlène
Quem abriu o festival foi a balarina e coreógrafa cabo-verdiana Marlène Monteiro Freitas, e o que fez foi tudo menos abrir com calma. Nôt (noite, em crioulo cabo-verdiano), parece que é um furacão coreográfico onde as Mil e Uma Noites são trituradas num pesadelo barroco, tribal, erótico e mecânico. Entre camas, máscaras e espasmos, oito intérpretes dançam como se a vida dependesse disso. E talvez dependa.
Público e crítica dividiram-se: uns saíram a meio, outros entraram em transe. Mas em Avignon, escândalo é sinal de vida, inovação e diferença. Marlène não homenageia Xerazade, exorciza-a. E isso, meus caros, não se vê na Netflix. É preciso estar lá. Ou contentar-se com relatos intensos, como eu.
Milo Rau: quando o teatro dói
Na programação está também o director teatral suíço Milo Rau, que não sabe o que é zona de conforto. Em Le Procès Pelicot-Hommage à Gisèle Pelicot, recriou o julgamento real de Gisèle, vítima de tráfico sexual pelo próprio marido, usando atas do tribunal e testemunhos reais, numa encenação que é faca aberta em carne social. Não sei se será exactamente um ‘espectáculo teatral’, convencional mas tudo gira em torno do caso Gisèle Pelicot, com uma noite de leituras para relatar este julgamento histórico, símbolo da banalização da violação e da violência contra as mulheres. Conta com a participação de cerca de 30 atores.

Portrait of Milo Rau © Bea Borgers
O teatro aqui não é metáfora: é ferida mesmo. É o tipo de peça que devia passar em horário nobre, com aviso de conteúdo forte e um psicólogo ao lado. A estreia é hoje, 18 de julho, e já é considerado um dos grandes acontecimentos do festival.

“La Lettre”/Milo Rau
Rau leva ainda o teatro para a periferia com La Lettre, uma peça itinerante inspirada nos clássicos, mas com o olhar cravado no presente. É descrita, como um ‘manifesto teatral’ que explora eventos que moldam a vida de jovens artistas, incluindo conflitos familiares, política e experiências de amor e perda. Para ele, o teatro é serviço público. E devia ser mesmo.

“The Wild Duck”/Thomas Ostermeier
O regresso de Ostermeier,
O alemão Thomas Ostermeier, o director da famosa Schaubühne de Berlim, regressa ao dramaturgo norueguês Ibsen, com uma versão profundamente reescrita de O Pato Selvagem (“The Wild Duck”), agora transformado numa crítica ao auto-engano liberal e à hipocrisia familiar. A crítica vai certamente dividir-se. Uns vão achar redundante, outros vão ver pertinência, nesta recriação. Mas o mais importante é isto: Ostermeier arrisca novamente. E em Avignon, só quem arrisca, existe.

“Brel”/Anne Teresa De Keersmaeker
Dança com política, Brel com breakdance
A dança também anda cheia de atitude. Brel, da coreógrafa belga Anne Teresa De Keersmaeker (que conheci há muitos anos no ACARTE da Gulbenkian, e vi há pouco mais de um mês na Culturgest), junta-a a uma jovem bailarina de breakdance. Ao som do cantor Jacques Brel, criaram um espetáculo frágil e visceral, numa pedreira nos arredores da cidade. Uma pedreira! Só por isso já valia um desvio até Avignon.

“Ri Te”/Israel Galván com Marlène Monteiro Freitas
Israel Galván, génio do flamenco mutante, apresenta dois espetáculos: um com Mohamed El Khatib, chama-se mesmo Israel & Mohamed, sobre a figura do pai, outro bem ao estilo de Marlène Monteiro Freitas e com ela, intitulado Ri Te. Imaginem o que será Galván a responder ao corpo de Marlène. Tem de haver transmissão em direto com legendas.

“Israel & Mohamed”/Israel Galván com Mohamed El Khatib
Resistência, língua árabe e a utopia de estar juntos
Este ano, o Festival convidou a língua árabe e responde politicamente ao contexto regional (Avignon é na Provença, bastião da extrema-direita). Espetáculos de Bashar Murkus, Ali Chahrour, homenagens a Oum Kalthoum e a voz de Boualem Sansal lida em público. Uma edição que recusa a indiferença e celebra a pluralidade e apela ao fim dos conflitos em Gaza.
Tiago Rodrigues resumiu assim esta edição 79: “Este verão, artistas de mais de 15 países reúnem-se em Avignon com um objetivo comum: construir uma utopia fugaz, mas real: a de estarmos juntos.” Bonito. E necessário. Sobretudo quando há quem ache que cultura se mede em likes e cortes nos orçamentos.

“Le Soulier de Satin”/Comédie-Française
O sapato de cetim e a vigília final
Ainda por estrear, mas já com culto garantido, está O Sapato de Cetim (“Le Soulier de satin”) de Paul Claudel, com encenação de Éric Ruf da Comédie-Française, uma maratona de oito horas que começa às 22h e termina às 6h da manhã seguinte, quando o sol nascer sobre o Palácio dos Papas. Uma vigília teatral. Um ritual de resistência. Uma prova de que o teatro não dorme e para quem quer teatro a sério.


