
O dia de ontem amanheceu e anoiteceu deixando-nos com um nó na garganta. Daqueles que nos apanha de surpresa, como um choque elétrico, ou uma travagem brusca no meio de uma autoestrada. Dois nomes, duas perdas, dois mundos diferentes, mas a mesma sensação de luto de tristeza, de incredulidade, de que há dias em que o mundo parece não fazer sentido nenhum.
Morreu Diogo Jota. Morreu Michael Madsen. E eu, que gosto de futebol e vivo para o cinema, mas não consegui pensar noutra coisa o dia todo, ver partir dois jovens da idade das minhas filhas.
Diogo Jota. 28 anos. Um craque português que chegou ao topo com o talento nos pés e uma espécie de brilho nos olhos. Ainda há poucas semanas levantava mais um troféu ao serviço da Seleção Nacional. Foi campeão da Premier League. Casou-se há dias, tinha filhos, futuro, sonhos, tudo isso ficou ali, estatelado numa autoestrada em Zamora, ao lado do irmão André. Dois irmãos, dois jogadores, um carro, um incêndio. E um país em silêncio. Fiquei arrepiado….

A morte de Diogo Jota, assim tão de repente, faz-nos cair no real. De uma brutalidade absurda, sem aviso. Como se o universo carregasse no ‘pause’ e ficasse tudo suspenso. Não é só o futebol que perde. É a ideia de que tudo está no seu tempo. Que há uma lógica no crescimento, na carreira, na vida. Ontem o tempo virou traidor.
Horas depois, ainda a tentar digerir o que tinha acontecido com o Diogo Jota, outra notícia atravessa o dia com a mesma violência surda: morreu Michael Madsen. 67 anos, corpo de actor maldito, voz de whisky e alma de poema. O eterno Mr. Blonde. O ícone que dançava ao som de Stuck in the Middle with You enquanto cortava uma orelha ao polícia — sim, essa cena que mudou o cinema dos anos 90, e que fez de Madsen um símbolo de tudo o que era perigoso, sexy, irreverente. Um cão danado, como lhe chamou Tarantino. E com razão.

Dois homens. Um com chuteiras, o outro com botas texanas. Um dentro das quatro linhas, o outro sempre na margem do plano. Um nascido em 1996, outro filho dos anos 50. Mas com algo em comum: não queriam ser iguais aos outros. Não encaixavam em estantes. Tinham personalidade, presença, carácter. Tinham nervo. E isso, hoje em dia, não se ensina. Nem se imita.
Talvez por isso, ontem, ao saber destas duas mortes no mesmo dia, tenha sentido o mundo um bocadinho mais vazio. Menos ousado. Mais liso. Porque perdemos dois homens que não pediam licença. Que faziam as coisas à sua maneira. E que, por isso mesmo, deixaram marcas.

Como se ultrapassa isto? Não se ultrapassa. Sente-se. Vive-se com essa ausência. Com a ferida. E com aquilo que nos deixaram. Diogo Jota, com a sua entrega dentro de campo, com a forma como representava Portugal e o Liverpool como quem joga com o coração nas chuteiras. Michael Madsen, com os seus papéis de durão frágil, com os poemas malditos que ninguém lia mas que ele insistia em escrever, com a imagem de pai de sete filhos que também fazia filmes para pagar as contas. Dois tipos reais, mesmo quando pareciam irreais. Ontem foi um dia triste. Hoje, o luto continua. Mas também a gratidão. Porque, durante um tempo, tivemos Diogo Jota a marcar golos que gritámos no sofá. E tivemos Madsen a olhar para a câmara com um ar que dizia ‘eu já vi tudo’. E isso, no fim, é o que fica. Uma memória com sangue, suor e alma.


