O Olho Que Tudo Vê: Como a Palantir Invadiu o Cinema, a Realidade e o Nosso Futuro
Do storytelling ao controlo total: como a Palantir transformou ficção científica em manual de operações mundiais. Aviso: Está a ler esta crónica, está certamente a ser observado, aliás como eu...

A Palantir, empresa de vigilância fundada por bilionários libertários, ocupa também agora o coração da indústria cinematográfica europeia em Londres. De Tolkien a Trump, de “Minority Report” à realidade, o storytelling virou software. E o guião somos nós.

Dois acontecimentos recentes puxaram-me para esta reflexão algo desconcertante. Primeiro, durante a apresentação do Tribeca Lisboa 2025, um painel com Joaquim de Almeida, Daniela Ruah e Rui Tendinha, moderado por Júlia Palha (sim, isto aconteceu), fez-me tropeçar numa pergunta que, confesso, nunca levei muito a sério: ‘Pode o storytelling mudar o mundo?’

Dias depois, fui parar a uma entrevista na RTP3 de Vítor Gonçalves a Bruno Maçãs, ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus, aspirante a guru geo-estratégico e especialista em parecer misterioso, que editou recentemente o livro “Construtores de Mundos-A Tecnologia e a Nova Geopolíptica” [Temas e Debates, 2025]. Um tipo com cara de puto nerd, ar de quem já leu todos os manuais da CIA e está sempre a dois tweets de lançar um novo império. Foi nesse contexto que voltou a surgir um nome que andava a pairar sobre mim há uns tempos: Palantir Technologies. Há aliás um documentário que gostava muito de ver intitulado Watching You: The World of Palantir and Alex Karp (2024), do realizador alemão Klaus Stern, — que creio, já esteve disponível na Mubi, mas curiosamente já não está, verifiquem o que diz lá na plataforma — que levanta a questão: Alex Karp e a Palantir, a empresa de software de análise de dados será segura para o mundo ou será altamente perigosa?

Palantir Technologies está agora no coração da industria europeia de cinema. Já tinha ouvido falar nesta empresa fundada por Peter Thiel (co-fundador do PayPal, financiador da extrema-direita americana e leitor compulsivo de Tolkien) que é um tipo mais temido do que conhecido. Dizem que Palantir Technologies foi uma das famosas start up de Silicon Valley financiadas pela CIA, que trabalha com a Mossad, que ajudou a encontrar Bin Laden e que criou um software de previsão de crimes usado pelas polícias americanas. Bom, diz-se muita coisa…E, já agora, está actualmente a desenvolver um sistema para facilitar a deportação em massa de imigrantes nos EUA, a pedido da administração Trump, que aliás foi notícia recente, porque provocou manifestações à porta dos seus escritórios em Nova Iorque e Palo Alto. Mas o que me fez mesmo parar para pensar, foi isto: parece que a Palantir instalou a sua sede europeia em vários edifícios da Soho Square, em Londres. Um local que não é apenas o coração simbólico da indústria cinematográfica europeia é quase um altar laico do storytelling ocidental. É onde sempre estiveram as produtoras, distribuidoras, editoras de argumentos, onde se pensaram futuros, mundos paralelos, distopias e utopias e onde fiz aliás alguns junkets/entrevistas de imprensa com alguns talentos e estrelas de cinema. Agora, a empresa que vigia tudo e todos ocupa esta pequena praça com jardim. num dos lugares mais exclusivos e caros de Londres. Não há coincidências: há sinais.

De Tolkien a Spielberg: a distopia como plano de negócios. Curiosamente o nome ‘Palantir’ vem, pois claro, das pedras videntes de Sauron de O Senhor dos Anéis. Instrumentos que permitem ver à distância, através do tempo e do espaço, mas que também distorcem a verdade e corrompem quem os usa. Tolkien via-as como um aviso. Thiel viu-as como uma oportunidade de branding. Já o modelo operativo da empresa parece quase retirado de Minority Report, de Steven Spielberg. Nesse filme de 2002, Tom Cruise lidera uma unidade de polícia que prende suspeitos antes de cometerem crimes, com base em previsões de mutantes videntes. A culpa deixou de ser acto e passou a ser intenção. A Palantir não tem mutantes, mas tem algoritmos. E tem clientes: a CIA, o FBI, a ICE, o exército americano, a polícia britânica e agora até algumas multinacionais que preferem saber demais a perder dinheiro. Tudo isto seria apenas perturbador se fosse ficção. Mas não é.

Uma nova ideia de storytelling: do cinema à cloud. Durante muito tempo, a ficção inspirava a tecnologia, que o digam os admiradores de Stanley Kubrick e de 2001 Um Odisseia no Espaço. Agora, parece que a tecnologia usa a ficção como rascunho. Peter Thiel lê Tolkien como quem lê um manual de guerra cultural. Alex Karp, CEO da Palantir e admirador de Habermas, vive num SCIF* em Palo Alto com paredes anti-ondas e ruído branco contra escutas. No seu mundo, a privacidade é um luxo pessoal; para os outros, é opcional. A Palantir constrói narrativas através de dados. Junta padrões, conecta eventos, antecipa comportamentos. Diz-nos o que vamos fazer antes de sabermos. Vende previsão, mas entrega controlo. É ficção especulativa com folha de Excel.

O storytelling não muda o mundo. Quem tem os dados, sim. Na tal conferência do Tribeca Lisboa 20025, falava-se de como as histórias podem mudar mentalidades. Talvez. Mas quem tem poder real são aqueles que controlam os metadados das histórias. O storytelling da Palantir não vive em ecrãs de cinema, vive em dashboards. É um storytelling logístico, preditivo, silencioso. Mais eficaz do que qualquer ficção porque ninguém o vê a chegar.

Estamos a viver o argumento de um filme que já vimos. Mas desta vez não há Tom Cruise. Há Bruno Maçãs a acenar com uma sobrancelha e Peter Thiel a financiar a próxima distopia. A Palantir não precisa de nos vigiar: já está dentro do guião. E nós estamos todos a desempenhar o nosso papel, sem termos sido chamados para casting. Como dizia Tolkien: “Nem todos os que vagueiam estão perdidos.” Mas talvez já todos tenhamos sido localizados.

Epílogo. Num mundo em que a inteligência artificial deixou de ser uma ideia para se tornar um actor de bastidores — silencioso, eficaz, sem rosto nem agenda aparente — a verdadeira questão talvez seja outra: não se o storytelling pode mudar o mundo, mas quem o escreve. A Palantir, com os seus contratos governamentais, o seu software invisível e a sua presença nos corredores do poder e agora nos bastidores do cinema, representa uma viragem fundamental no nosso tempo: a ficção deixou de antecipar o futuro e passou a ser retro-alimentada por empresas que o querem controlar. E se antes o mundo era feito de mitos, personagens e narrativas, agora é feito de dados. Estamos a viver a história que outros escrevem por nós, sem um final previsível, sem intervalo para pipocas e, pelo andar da carruagem, sem heróis de capa-e-espada, para salvar o nosso dia.

*Sensitive Compartmented Information Facility, é um espaço fisicamente seguro projetado para o processamento, armazenamento e discussão de informações sensíveis e confidenciais, como informações de inteligência compartimentadas (SCI). É um ambiente controlado onde medidas rigorosas são implementadas para proteger informações classificadas contra acesso não autorizado, escutas e outras ameaças. (Fonte: Google)

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