“Ney Matogrosso: O Homem com H Maiúsculo e Saias de Lantejoulas”
O filme de Esmir Filho não é só um biopic. É uma performance visual e política que veste o corpo de Ney como manifesto e canta o Brasil que desafiou com voz de contratenor. Está disponível na Netflix.

“Homem com H”, de Esmir Filho, agora intitulado “Latin Blood: The Balada of Ney Matogrosso” na Netflix (porque o marketing precisa de sangue latino no título para os assinantes clicarem), é daquelas biografias que não se limitam a passar a ferro a vida de uma estrela. Aqui, o ferro de passar é de engomar, sim, mas também de soldar, provocar e incendiar.

Ney Matogrosso não é figura fácil de resumir, e ainda bem. Tentá-lo seria como tentar guardar purpurina num frasco de vidro fosco. Este filme entende isso desde o primeiro plano. Realizado com o mesmo pulsar sensual, febril e politizado que caracteriza o artista, Esmir Filho (que já vinha da sua ousadia em “Os Famosos e os Duendes da Morte”) arrisca uma viagem imersiva pela carne, suor e alma de um corpo em revolta. Um corpo que canta, dança e se recusa a caber nos limites impostos por ditaduras, sejam elas políticas, familiares ou sexuais.

“HOMEM COM H” TRAILER

O Ney que canta, sangra e morde

A estrutura narrativa evita o clássico ‘nascimento-ascensão-queda-superação’ e foca-se no que realmente importa: a metamorfose. Do menino Ney, filho de militar castrador, ao xamã de lantejoulas e penas dos Secos & Molhados, a história é contada como uma espiral de libertação. E que libertação. Aquele corpo frágil, maquilhado e de voz fina era, nos anos de chumbo do Brasil, mais perigoso que uma metralhadora. Ney usava o palco como trincheira e os saltos altos como arma. Não havia nada mais punk do que ele.

A escolha de Jesuíta Barbosa para o papel principal é um caso sério. Não é uma simples imitação é uma verdadeira possessão. Não sabemos onde acaba o ator e começa o espírito de Ney. A decisão de usar a voz original do cantor em vez de pedir a Barbosa que cante é de uma inteligência rara. Há algo de mágico — quase esotérico — nessa simbiose entre corpo e som. O ator treme, ruge, dança. E Ney, com a sua voz inconfundível, entra-nos pelos ouvidos adentro como um fantasma que nunca quis ser exorcizado.

Glam Rock, Ditadura e Glitter como Protesto

O filme acerta ao colocar o espetáculo como linguagem de resistência. Ao contrário de outras cinebiografias com mais medo do que verdade (olá, Bohemian Rhapsody), “Homem com H” abraça o risco e mergulha nos detalhes íntimos, sensoriais, e até animalescos da performance. A relação com Cazuza, o trauma da SIDA, os amores, as perdas, o pai ausente, tudo está lá, mas não como melodrama de lágrima fácil. Está lá como matéria-prima para a construção de um ícone que fez da fragilidade a sua força.

E que dizer da fotografia de Azul Serra? Cores quentes, closes suados, texturas que quase se tocam. O filme cheira a couro, a suor e a liberdade. Há um erotismo que não é gratuito é político. Ney sempre entendeu que o corpo, quando exposto, incomoda mais do que um discurso. E Esmir Filho filma esse corpo como quem escreve um poema de combate.

Um H de Heresia

O título original “Homem com H”, — desculpem-me mas veio-me logo à cabeça o excelente “Morrer como um Homem” de João Pedro Rodrigues — é, por si só, um achado irónico e desafiante. No Brasil, “homem com H” é sinónimo de virilidade à moda antiga, com bigode, punho fechado e medo do toque. Ney subverte essa ideia ao ponto de a pulverizar. Ele é “homem com H” porque teve a coragem de ser tudo o que a norma dizia que um homem não podia ser. Cantou com voz fina, vestiu-se de mulher, dançou de costas para o machismo. E, surpresa: foi amado por milhões. No auge da ditadura militar, um ser andrógino e desafiador enchia estádios e passava na televisão. Isso sim é revolução.

“Latin Blood-The Ballad of Ney Matogrosso”, como lhe chama a Netflix pode soar a telenovela ou a título de reggaeton, mas não isso importa. O que importa é que o mundo inteiro tem agora uma boa oportunidade de descobrir melhor que o Brasil não é só samba, futebol, bossa nova, Bolsonaro ou Caetano Veloso e Maria Bethânia. Também é Ney. Também é escândalo. Também é arte que morde.

Conclusão: “Homem com H”, de Esmir Filho não é só um filme sobre Ney Matogrosso. É uma carta de amor à coragem. À liberdade de ser, de parecer, de cantar contra a corrente. Ney não pediu licença — subiu ao palco, pintou-se, despiu-se e disse: ‘aqui estou’. O filme segue esse mesmo gesto. E nós, enquanto espectadores, só temos de agradecer por esta viagem entre o sangue, o brilho e a voz de um artista que, afinal, sempre foi muito mais que um homem com H. Foi — e é — um furacão.

O melhor: Jesuíta Barbosa em estado de graça; a voz original de Ney; a fotografia vibrante; o filme como ato político e sensual.

O pior: O título internacional é um bocadinho ‘Netflix a querer vender para fora o que já brilhava por dentro’. Mas passa.

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