
Há filmes que se impõem pelo barulho e outros pelo silêncio. “Lindo”, de Margarida Gramaxo, estreou esta semana nas salas de cinema, como quem chega devagarinho e sem pedir licença. Mas atenção: é daqueles filmes que ficam e não se esqueçe. Que nos mudam por dentro. Que nos lembram, sem levantar a voz, que ainda é possível acreditar na beleza, na escuta, na transformação. E sim, o título não engana: “Lindo” é mesmo lindo. Lindo nos planos subaquáticos que nos mergulham num mundo ancestral. Lindo nas praias que não se renderam ainda (ou entretanto já??) ao turismo de pacote ou de massas. Lindo nas palavras ditas em crioulo e em português de São Tomé, com doçura e convicção. Mas, acima de tudo, lindo na forma como olha para um homem e para uma ilha com dignidade, sem moralismo nem condescendência. Cinema do bom e do raro.

O Lindo é um homem e um gesto
Durante vinte anos, Lindo (de seu nome Manuel da Graça) foi caçador de tartarugas marinhas. Fazia parte de uma cadeia de sobrevivência onde a tradição local colidia com a conservação ambiental. Depois, teve um momento de epifania, um encontro com uma tartaruga que não fugiu. E tudo mudou. Mas o que poderia ser apenas uma história de redenção cor-de-rosa transforma-se, nas mãos de Margarida Gramaxo, num gesto de cinema profundamente ético. A realizadora não filma Lindo como herói, nem como mártir. Filma-o como homem: contraditório, enraizado, crente, vulnerável, ativo na comunidade e transformado pela escuta. É essa escuta, rara no cinema português e ainda mais rara no documentário, que faz deste filme uma pequena maravilha. Não há pressa, não há julgamento, não há tese. Há tempo. Há vida. Há cinema.

A beleza das imagens que respiram
A fotografia de “Lindo” de Hugo Azevedo na câmara e João Rodrigues debaixo de água criam um universo visual que dispensa filtros e poses. A luz é natural. O mar é real. As cores são da terra. E no meio disto tudo, a montagem de Grazie Pacheco dá o ritmo certo às marés. Nada aqui é decorativo. A beleza nunca é um fim, é antes uma consequência da escuta, do tempo, da empatia com o lugar.

Mesmo os silêncios são música. A banda sonora de Hugo Leitão e o som de Pedro Freitas acompanham, mas nunca se impõem. Há uma leveza neste filme que não é ausência de conteúdo é antes o contrário. É saber dar espaço à complexidade, sem necessidade de a empacotar.
Um filme profundamente político sem ser panfleto
“Lindo” não grita. Mas é um filme político até à medula. Porque questiona o lugar do homem na natureza. Porque fala de património, de futuro, de comunidade, de fé e de sustentabilidade. Porque mostra como o desenvolvimento pode (e deve) passar por dentro das pessoas, e não por cima delas.

E tudo isto sem recorrer a entrevistas em plano fixo ou gráficos animados. “Lindo” é um filme de vivência. De estar. De voltar aos mesmos sítios. De mostrar como a mudança é feita de pequenos gestos, de debates no areal, de conversas entre pescadores, de silêncios que dizem tudo. É essa delicadeza — essa humildade narrativa — que o torna uma grande obra cinematográfica.
Margarida Gramaxo: uma estreia de peso
É difícil acreditar que este é o primeiro filme de Margarida Gramaxo. Pela maturidade do olhar. Pela firmeza da proposta. Pela coragem de demorar quase dez anos a filmar, sem pressas nem atalhos. E, sobretudo, pela capacidade de construir um filme que é simultaneamente uma carta de amor à Ilha do Príncipe e um retrato sóbrio das suas tensões e desafios. Há uma inteligência aqui que não precisa de se exibir. Que trabalha com subtileza, com rigor e com compaixão. O cinema português tem muitos talentos mas poucos capazes de assinar uma estreia tão segura e tão sensível como esta.

Conclusão: “Lindo” é muito mais do que um filme bonito. É um gesto. Um abraço. Um tempo suspenso em que o espectador é convidado a escutar, a observar, a sentir. É um cinema que acredita nas pessoas, no território, na possibilidade de redenção. E que, no meio de tanto cinismo e ruído, nos dá algo raro: esperança. Não, não é só um filme ecológico. Nem só um documentário contemplativo. É um filme sobre pertença. Sobre transformação. Sobre como o cinema pode ser radical quando é profundamente humano. E sim é deslumbrante. Vão vê-lo. Levem os olhos, os ouvidos e sobretudo o coração.


