“La La Land”, um saco de pipocas e como me transformei no Ryan Gosling do Parque Mayer
Cine Capitólio Rooftop, cinema sob as estrelas...

Uma noite de cinema ao ar livre com sol, sonhos, canções e um toque de pipocas com açúcar, onde me reencontrei com um dos meus filmes preferidos e, vá lá, com o melhor de mim e dos meus sonhos: a magia do cinema.

Há quem vá ao cinema para fugir do mundo. Outros, para o compreender. Eu fui ao Cine Capitólio Rooftop, no coração de Lisboa, para o celebrar…e porque fui convidado. Com pipocas, céu limpo e, já no fim da sessão, aquele fresquinho que nos recorda que as noites de verão em Lisboa também sabem ser matreiras. Felizmente, levei um casaquinho e estava lá uma mantinha, que me ajudaram a manter a compostura enquanto via “La La Land” sentado numa espreguiçadeira de praia, versão Parque Mayer Deluxe. Resultado? Saí a dançar escadas abaixo como se fosse o Ryan Gosling da Praça da Alegria. Sem talento, mas com entusiasmo, mas apreensivo porque o Hot Clube, o nosso Seb’s, continua fechado.

“LA LA LAND-MELODIA DE AMOR” TRAILER

Deixem-me contextualizar. Era a sessão inaugural do novo rooftop de cinema, com vista para os telhados, com aviões sempre a passar lá ao fundo, mas não se ouviam, projectores de luz azul e roxa estilo rom-com e o cheirinho a pipocas no ar, esse aroma que nos transporta para os tempos em que ir ao cinema era um acontecimento e não um passatempo de scroll. E no centro disto tudo… o filme que me faz acreditar que a vida devia ter mais coreografias espontâneas e menos facturas da EDP: “La La Land — Melodia de Amor”, passado em Los Angeles, a tal city of stars.

Sim, já vi este filme. Várias vezes. A primeira, na sua estreia em Veneza — sim, essa — e outras tantas vezes em casa, com a banda sonora a tocar no YouTube em loop, especialmente nos dias em que ser adulto funcional parece ficção científica. A canção mais conhecida? Claro, ‘City of Stars’. Embora ‘A Lovely Night’ tenha aquela coreografia irresistível, ‘City of Stars’ é o hino melancólico que fica colado como uma chiclete emocional ao fundo da garganta. Mesmo quem nunca viu o filme já a ouviu algures. No Uber, no supermercado, ou naquele vídeo motivacional partilhado por um amigo coach no Instagram.

Mas ver “La La Land” ao ar livre, no topo do Capitólio, com Lisboa a suspirar em pano de fundo e a brisa a empurrar os refrões de Justin Hurwitz por entre os copos de vinho, é quase uma experiência religiosa. Só faltava mesmo a Emma Stone descer da lua cheia com um gin tónico na mão e um olhar cúmplice do outro mundo.

A magia começou logo com os primeiros acordes de ‘Another Day of Sun’, aquele número musical em que um engarrafamento se transforma numa rave vitaminada. O céu real ali por cima, o céu de Los Angeles no ecrã, e eu ali no meio, quase pronto para saltar do carro e dançar sobre o capot de um Uber, com se tivesse em pleno IC19. Cantei baixinho. Balancei o corpo. E dei por mim com aquele sorriso idiota e feliz, colado à cara.

E comi pipocas. Pipocas doces e caramelizadas com arrependimento incorporado, do tipo que só sabe bem no escuro. Ou, neste caso, sob a luz tímida da cidade. Pelo menos, com os auscultadores, ninguém me ouvia a ruminar.

Há filmes que servem para isso: para nos fazerem esquecer que o mundo está um caos, que a política é uma novela mexicana de segunda e que a nossa conta bancária parece uma linha de eletrocardiograma prestes a desligar. “La La Land” faz isso. E fá-lo com classe, com jazz e com um final que nos aperta o coração com nó de marinheiro. Nem sempre os amores vencem, mas, pelo menos, dançaram juntos durante um tempo. “Que seja eterno enquanto dure”, dizia o Vinicius de Moraes. E disso, ninguém os desvia.

Olhei à volta e vi emoção. Lili Caneças — sim, essa senhora muito fina — chorava baba e ranho sentada lá na frente. Ricardo Carriço, sempre contido, limpava discretamente uma lágrima ao canto do olho. Sónia Balacó murmurava versos da canção final como quem recita T.S. Eliot, e o Rui Tendinha — o cinéfilo-mor — tentava convencer os amigos e desconhecidos, de que sim, aquela última cena é de chorar — e não só por causa da cebola dos nachos ou das dores de estômago provocadas pelos pastéis de bacalhau, dos rissóis ou qualquer fritura emocional ingerida no calor do momento. As chamussas, por serem vegetarianas, causavam menos estragos.

Ontem à noite, no Capitólio, éramos afinal todos sonhadores, todos ‘lalalandianos’. Uns mais românticos, como o Fernando Alvim, sempre atento às beldades — embora tenha deixado escapar mais cedo a Sara Esteves Cardoso — e outros mais cínicos, como o inevitável Coronel José Moutinho, verdadeira lenda viva da forças armadas e do jet-set nacional. Mas todos rendidos à ideia de que, por duas horas, a vida podia ser uma valsa, uma jam session, uma nota bem tocada ou um céu estrelado sobre Lisboa.

Há quem diga que “La La Land” é demasiado nostálgico, demasiado bonito para ser levado a sério. Que vende uma ideia ingénua do sucesso e do amor. Talvez. Mas há dias em que precisamos mesmo disso: de uma fantasia bem coreografada, que nos recorde como seria a vida se fôssemos mais fiéis aos nossos sonhos, mais atentos aos sinais do universo e menos viciados no scroll infinito das redes sociais.

O filme acabou e ninguém teve pressa em levantar-se — também não é fácil uma depois de 2 horas sentado, naquelas cadeiras que afundam. Ficámos ali, a mastigar a última pipoca, em silêncio cúmplice, a tentar prolongar aquele estado de encantamento. Porque, no fundo, todos sentimos que, por uma noite, vivemos dentro de um filme. Um daqueles que não muda o mundo mas muda o nosso estado de espírito. E isso, às vezes, basta. Palavra de Carlos Moedas. Que não pagava bilhete, mas não apareceu. Cine Capitólio Rooftop, vai continuar nas próximas semanas por todo o verão e até um pouco mais, com a Cinebox a fazer rodar as fitas e tudo resto.

©José Vieira Mendes
Imagens de Fundo

Mais artigos