O novo filme de James Gunn traz-nos um Superman (David Corenswet) imigrante, bondoso e com valores sociais. E isso, em Portugal, é mais do que suficiente agora para André Ventura exigir a sua extradição imediata para Krypton, por ser um imigrante ilegal. Mas caramba, deixem o Superman trabalhar.

Há um novo inimigo público no radar da direita radical portuguesa. Não é o Costa. Não é o Galamba, nem o Pedro Nuno. Não é o SEF, nem os imigrantes da Rua do Benformoso. É o novo Superman. Sim, esse mesmo: cuecas por cima das calças, capa vermelha, olhos de raio-X e uma ligeira pancada por salvar o mundo. James Gunn, o realizador desta nova versão, cometeu o ultraje de o apresentar como… imaginem só… um imigrante com valores humanos. A extrema-direita americana espumou. E por cá? Por cá, o Chega também já está certamente a afiar os dentes.

Krypton é onde? Na Margem Sul?
Na versão portuguesa desta indignação viral, é só esperar pelos takes inflamados. Se ainda não saíram da boca de Ventura, estão neste momento a ser redigidos por algum estagiário ressabiado na cave do partido ou então pela Rita Matias, que até cresceu no Seixal. É só uma questão de tempo até ouvirmos algo como:
“Portugal não pode ser a plataforma giratória de extraterrestres ilegais com superpoderes ideológicos.”
Ou:
“Superman? Não, obrigado. Queremos heróis que defendam a tradição, a família e o bacalhau com todos.”

Talvez um dia destes num comício em Portalegre ou num directo no TikTok, Ventura acabe a lamentar que agora até os filmes de super-heróis sejam instrumentos da “agenda globalista”. Aliás, não me espantaria se surgisse uma proposta concreta: submeter o Superman à medida cautelar da nova “Lei dos Estrangeiros de Capas”, que obriga todo o ser voador a provar que não representa riscos para a cultura portuguesa. E sobretudo que venha a ter filhos em Portugal inscritos em creches e escolas públicas. A não ser, claro, que esteja disposto a trabalhar nas vindimas, na apanha do tomate ou como entregador da pizza lá em casa, montado na bicicleta.
Lois Lane é feminista? Está cancelada!
E depois temos a Lois Lane (Rachel Brosnahan). Jornalista independente, sem paciência para baboseiras, que se vivesse por cá fazia perguntas a sério ao Sócrates e não se ia embora a meio de uma entrevista à porta do tribunal. Não ficava só a ouvir as máximas do Marques Mendes, sem abrir a boca, como a Clara de Sousa. Lois é uma mulher de carreira, com voz própria e zero inclinação para deixar-se apenas ser salva de prédios em chamas. Escândalo. Como se atreve?

Esta não é certamente a versão que o Chega gostaria para a jornalista. Eles preferiam algo mais próximo da ex-candidata à Câmara de Loures que jurava que a submissão era a verdadeira liberdade feminina. Uma Lois que esperasse em casa, de avental, pelo Clark Kent e votasse com orgulho contra as quotas, o género e os direitos humanos. Dona Lois, volta, que estás perdoada (se trouxeres a marmita).
Lex Luthor como Ministro da Defesa
Aliás, se fosse por Ventura, o Lex Luthor (Nicholas Hoult) já seria Ministro da Defesa. Qual Nuno Melo, qual carapuça. Luthor é o candidato ideal: homem de negócios, empreendedor, com ideias firmes sobre “ameaças alienígenas” ou melhor, imigrígenas. Um tipo que, por ele, construía um muro à volta de Krypton e ainda metia a conta no PRR. Afinal, há que defender a soberania portuguesa intergaláctica.

A verdade é esta: o que o Chega queria mesmo era um Superman musculado, sim, mas ideologicamente vazio. Sem ambições. Um herói que só gostasse de trabalhar e ganhar dinheiro, como o Luisinho de Espinho. Alguém que usasse a capa só para tapar as estatísticas do INE. Que sobrevoasse os bairros sociais não para ajudar, mas para monitorizar, como o Moedas. Um herói à medida dos tempos: forte, branco, hétero, e a dizer “Isto é uma vergonha!” a tudo o que não entende.
Um herói contra a injustiça? Demasiado subversivo.
O que mais os incomoda neste novo Superman nem é o fato, nem os efeitos especiais, nem a realização do Gunn. É a mensagem. A ideia de que se pode ser poderoso e, ao mesmo tempo, gentil. Que se pode vir de fora e ainda assim ser símbolo de pertença. Que se pode lutar pela verdade e pela justiça sem precisar de gritar no Parlamento ou de mandar bocas no Twitter.

No fundo, é isso que assusta: que o verdadeiro herói da história… não precise de ofender ninguém para existir.
Portugal precisa de heróis, não de figurantes zangados
No meio de tantas broncas, CPIs, arrufos no Parlamento e reality shows políticos, o país precisava mesmo era de um Superman. Alguém que voasse por cima da mediocridade, apanhasse fake news a meio do ar e derretesse, com visão de calor, a estupidez legislativa. Mas não temos isso. Temos o Chega e os seus militantes e a bancada de deputados. E o Chega vai querer deportar o Kal-El. E os filhos. Não há cá reagrupamentos. E a Lois. E até o gato, se não tiver microchip. Ainda bem que vieram de nave espacial, não passaram pelo aeroporto, não trouxeram mala de viagem, senão ficavam sem ela.


