
Lisboa está bonita. Lisboa está triste. Lisboa está cheia de miúdos com 24 anos que dizem ‘iá’, ‘na boa’ e que trabalham a contar bicicletas para sobreviver até ao próximo open mic. “A Vida Luminosa”, a primeira longa-metragem de João Rosas, é sobre eles. Mas também é sobre nós. E, juro, é um excelente filme português. Daqueles que não pedem desculpa por o ser.

O protagonista, Nicolau — eterno millennial em modo stand-by, interpretado com brilho por Francisco Melo desde os tempos do secundário, e das curtas Entrecampos, Maria do Mar e Catavento — vagueia por uma cidade onde tudo parece estar à espera: os amigos, os pais, os empregos que não aparecem, os amores que não acabam nem recomeçam. Rosas filma esse estado suspenso com uma delicadeza desconcertante, como se cada cena fosse um poema escondido atrás de um café frio.
E não, isto não é um drama nacional sobre uma ‘juventude perdida’ com violinos tristes ao fundo. Isto é uma comédia agridoce com diálogos maravilhosamente absurdos, personagens que discutem sexualidade e capitalismo ao pé de campas e cenas de amor filmadas em cemitérios como se fosse a coisa mais normal do mundo. E talvez seja.

João Rosas não filma Lisboa como se fosse um postal ilustrado, nem como se fosse um videoclip de fado-indie. Filma-a como quem anda a pé: com vagar, com escuta, com respeito pelos detalhes. As varandas onde se fuma, os cafés onde se discute Godard entre croissants, os amigos que não servem para nada e ainda bem. A cidade aqui é cenário, é personagem, é espelho.

Sim, o filme é sobretudo para os ‘vintaneros’ que acham que a vida devia vir com legendas e apoio psicológico gratuito. Mas é também para os pais que acham que a culpa é da geração TikTok e para os avós que não percebem por que raio ninguém casa antes dos trinta. Há espaço para todos nesta viagem de passos perdidos, de microdramas e de existencialismo low-budget com uma banda sonora melancólica.
E depois há a Chloé. Francesa. Anda por cemitérios. Fala pouco, observa muito. É um delírio romântico saído de um filme francês e pousado em Lisboa para confundir Nicolau. Como todos os amores importantes: aparece do nada e deixa-nos em suspenso.

Se ainda achas que o cinema português é só filmes lentos sobre gente calada no Alentejo, faz-te um favor: vai ver “A Vida Luminosa”. Leva os teus amigos. Ou os teus pais. Ou vai sozinho(a). Vai porque este é um daqueles filmes que nos fazem sentir que não estamos assim tão sozinhos neste desgoverno emocional a que chamamos vida adulta. E porque sim, há esperança para o cinema português. E ela passa por aqui.
“A Vida Luminosa”, de João Rosas, está nas salas de cinema em Portugal e estreia hoje na selecção competitiva do 59º Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary, na República Checa. Ainda há salvação para o cinema português.


